A escritora Lídia Jorge, natural de Boliqueime, no concelho de Loulé, foi distinguida com o Prémio Camões 2026, o mais prestigiado galardão da literatura em língua portuguesa. A decisão foi tomada por unanimidade pelo júri, que destacou o conjunto da sua obra e o contributo que, ao longo de mais de quatro décadas, tem dado para o enriquecimento do património literário e cívico-cultural da língua portuguesa.
O anúncio foi feito pelo Ministério da Cultura, Juventude e Desporto, após a reunião do júri, realizada na tarde de quinta-feira, 2 de julho, por videoconferência. Na fundamentação da decisão, os jurados sublinham que a autora construiu uma obra marcada por uma escrita de grande exigência literária, caracterizada por uma prosa poética densa e por uma reflexão constante sobre alguns dos temas centrais da sociedade portuguesa contemporânea.
Entre esses temas destacam-se o período da ditadura e a transição para a democracia, a condição feminina, a emigração, os conflitos entre gerações, as profundas transformações sociais e o papel da memória coletiva na construção da identidade individual e nacional. Para o júri, a consistência e a relevância destes temas fazem de Lídia Jorge uma das vozes mais influentes da literatura portuguesa contemporânea.
A ministra da Cultura, Juventude e Desporto, Margarida Balseiro Lopes, considerou que a distinção representa o reconhecimento de uma autora que tem contribuído de forma decisiva para afirmar a língua portuguesa como espaço de criação, pensamento e diálogo entre culturas. A governante foi quem comunicou pessoalmente a atribuição do prémio à escritora, através de um contacto telefónico.
Instituído em 1988 pelos governos de Portugal e do Brasil, o Prémio Camões distingue autores cuja obra tenha contribuído de forma relevante para a projeção e valorização da língua portuguesa. O galardão tem um valor monetário de 100 mil euros, suportado em partes iguais pelos dois países, sendo amplamente considerado a mais elevada distinção literária do universo lusófono.
Nascida em 1946, em Boliqueime, Lídia Jorge estreou-se na ficção em 1980, com a publicação do romance “O Dia dos Prodígios”, obra que rapidamente se afirmou como uma referência da literatura portuguesa contemporânea. Desde então, construiu um percurso literário amplamente reconhecido dentro e fora do país, com dezenas de obras publicadas, traduzidas para várias línguas e estudadas em universidades de diferentes países.
O seu romance mais recente, “Misericórdia”, publicado em 2022, consolidou esse reconhecimento internacional ao conquistar importantes distinções, entre as quais o Prémio Médicis Étranger, em França. Ao longo da carreira, a escritora foi ainda distinguida com o Prémio FIL de Literatura em Línguas Românicas, o Prémio Estatal Austríaco de Literatura Europeia e o Prémio Pessoa, recebido em 2025.
Mais recentemente, no passado mês de junho, Lídia Jorge recebeu também a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Governo durante a realização da quarta edição do Fórum Cultura, que decorreu em Loulé.
O júri do Prémio Camões 2026 foi constituído pelos portugueses José Carlos Seabra Pereira e Ana Mafalda Leite, pelos brasileiros José Bessa e Lúcia Santaella, e pelos representantes dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa Odete Semedo e Lopito Feijóo.
Na edição anterior, o Prémio Camões foi atribuído à poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares, mantendo a tradição de distinguir algumas das mais relevantes figuras da literatura em língua portuguesa.
Imagem: Expresso












